Entrevista com Márcio Seligmann-Silva

Obra de Walter Benjamin é essencial para pensar “século de catástrofes”

Em entrevista, Márcio Seligmann-Silva explica por que Walter Benjamin é cultuado na América Latina como uma figura simbólica e de que forma sua obra tem auxiliado na construção de uma “cultura da memória” no continente.

No contexto de um simpósio sobre a atual recepção da obra do pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), que aconteceu na terça-feira (29/06), no Instituto Ibero-Americano de Berlim, o pesquisador brasileiro Márcio Seligmann-Silva foi convidado a participar de uma mesa de debates sobre os reflexos da obra benjaminiana nas sociedades europeias e latino-americanas, sob as perspectivas do urbanismo, da política e da crítica literária.

A contribuição de Seligmann-Silva no simpósio é uma reflexão sobre a “teoria da imagem e da escritura em Benjamin”, na qual o teórico brasileiro traça paralelos entre o discurso de Benjamin e os de Vilém Flusser (1920-1991) e Haroldo de Campos (1931-2003). Dentro do projeto que une os três, diz Seligmann-Silva, “delineou-se uma revalorização do elemento escritural da imagem e também, de modo inverso, revelou-se o lado imagético da escrita”.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, em que Seligmann-Silva fala sobre a “espécie de anarquismo melancólico de esquerda” que permeia a obra benjaminiana, bem como sobre a posição de vanguarda de Benjamin ao pensar as Humanidades de modo transdisciplinar – prática hoje tão em voga – já nos idos dos anos 1930.

Deutsche Welle: Segundo o pesquisador Horst Nitschack, os escritos de Walter Benjamin são com certeza alguns dos textos europeus que mais influenciaram o discurso teórico dentro das Ciências Humanas, no decorrer das três últimas décadas, na América Latina, principalmente no que diz respeito à Teoria da Literatura e da Cultura. A que se dá, em sua opinião, essa predileção por Benjamin no continente?

Márcio Seligmann-Silva: O que Horst Nitschack nota é uma verdade absoluta. Já há meio século, a obra de Walter Benjamin marca muito do que é feito nas Ciências Humanas na América Latina. Acredito que este sucesso tem diferentes fontes.

Em primeiro lugar, é claro, ele se deve à grande qualidade da obra e à perspicácia intelectual de Benjamin, que são reconhecidas internacionalmente. Benjamin escreveu sobre diferentes temas – teoria da história, da tradução, sobre a violência e as mudanças no modo de recepção das obras de arte, entre muitas outras questões que abordou – sempre de modo original e profundo.

Em segundo lugar, Benjamin via a história como um palco onde aquilo a que chamamos de progresso é revelado como sendo um acumular de catástrofes. Esta visada dramática e ao mesmo tempo radicalmente crítica atrai os intelectuais latino-americanos, que convivem em sociedades marcadas pela desigualdade e por tremendos conflitos sociais.

Por último – sendo bem sucinto – a própria vida trágica de Benjamin, que se suicidou na fronteira entre a França e a Espanha, quando tentava fugir da Gestapo, desperta empatia. Na América Latina, Benjamin é reverenciado intelectualmente, mas também cultuado como uma figura simbólica, que encarna a luta por um mundo não só melhor, mas radicalmente outro.

Na apresentação do simpósio que aconteceu Berlim nesta terça-feira (29/06), os organizadores afirmam que a recepção da obra de Benjamin na América Latina, ao contrário do que ocorre na Europa, acentua as “intenções políticas” do autor, bem como os aspectos de “teoria da mídia” tratados por ele. Existe, de fato, essa diferenciação? Se sim, por quê?

Walter Benjamin

É evidente que este tipo de generalização não leva em conta que, ao menos nos últimos vinte anos, a recepção de Benjamin se internacionalizou a tal ponto que fica difícil dizer o que se faz de específico seja na Europa ou na América Latina, ou ainda o que distinguiria os estudos benjaminianos destes dois complexos e matizados continentes.

Mas é inegável que na América Latina pode-se perceber um predomínio da leitura política – e aqui deve-se ler: das posições revolucionárias – de Benjamin. Vale lembrar que ele nunca se filiou ao Partido Comunista e foi inclusive um grande crítico da política como instituição (seja do sistema de representação parlamentarista, seja das práticas reais do comunismo de Estado).

Na verdade, a consciência crítica radical de Benjamin sempre o empurrava para uma espécie de anarquismo de esquerda melancólico. É esta também, em boa parte, a coloração política de intelectuais na América Latina descontentes com a “grande política” e fascinados com a frescor e a radicalidade das idéias de Benjamin.

Já na Europa – grosso modo e com honrosas exceções – predomina um tipo de leitura mais filológica. O risco desta abordagem é que ela tende a embalsamar a ainda potente e pouco explorada carga explosiva da obra benjaminiana. Afinal, para ele, tudo era, antes de mais nada, uma questão política.

Você afirma que Benjamin teve a ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”. Essa tendência à ruptura e ao “novo” e essa distância do dogmatismo, presentes no discurso de Benjamin, seriam responsáveis pela forte recepção de sua obra no “Novo Mundo”?

É bem possível. Na América Latina (e também nos Estados Unidos) temos maior abertura para novas maneiras de pensar. Benjamin, para ficar em um aspecto da questão, desafiou ao longo de sua vida as fronteiras entre as disciplinas.

Ele era filósofo, germanista, romanista, sociólogo, teórico das artes e da tradução, sem contar que também era grafólogo e um adepto do haxixe. Por conta desta heterodoxia, até hoje a maioria dos departamentos de Filosofia não encaram com seriedade a sua obra. No Brasil, a sua obra é recebida em todas as áreas das ditas Ciências Humanas. O modo transdisciplinar de se pensar as Humanidades está em voga e Benjamin já o praticava nos anos 1930.

É de Beatriz Sarlo a observação: “A leitura de Benjamin produziu uma espécie de erosão teórica, que devora a originalidade benjamininana até os limites da completa banalização. Dizer que estamos frente a um caso de empobrecimento semântico é pouco”. Você concorda que haja essa “atualidade inflacionária” do discurso de Benjamin na América Latina, apontada por Sarlo?

No caso, Beatriz Sarlo se referia mais à situação na Argentina. Lá, de fato, ocorreu uma espécie de “epidemia” benjaminiana. De repente, certos conceitos ou mesmo palavras que Benjamin utilizou, se tornaram amuletos, totens reverenciados ou chaves para discursos que na verdade eram vazios e tautológicos.

Não que isto não tenha ocorrido (e não ocorra mais) no Brasil. Mas acho que a escala é menor aí. De qualquer maneira, não se deve, a partir da constatação dessa “inflação benjaminiana”, passar para um discurso anti-benjamiano, como algumas vezes acontece, mesmo a partir destas análises de Sarlo.

Muito pelo contrário, o desafio é justamente mostrar a qualidade e complexidade das idéias de Benjamin. Encontros como este aqui em Berlim permitem justamente se fazer este tipo de balanço na história da recepção e mostrar que nem tudo está perdido!

Estaria essa suposta predileção latino-americana por Walter Benjamin também ligada à tradição do ensaio – gênero adotado por Benjamin, que transita entre o discurso literário, sociológico, histórico, antropológico, político – e tão cultuado na América Latina?

Sim, a isto me referia também quando falei do traço como que “não disciplinado” da obra de Benjamin. Na América Latina, temos uma grande tradição de ensaístas. Não é por acaso que, no Brasil, um de nossos maiores poetas, mas também um grande ensaísta e crítico literário, como foi Haroldo de Campos, foi um dos maiores e melhores intérpretes da obra de Benjamin.

Sua participação no workshop em Berlim remete à “teoria da imagem e da escritura em Benjamin, Flusser e Haroldo de Campos”. Seria possível resumir aqui a interseção que você faz entre esses três autores?

Walter Benjamin pode ser considerado um dos melhores representantes das vanguardas históricas, artísticas, do século 20. Esta visada é importante, pois o coloca não só como “filósofo das vanguardas”, mas como parte delas. Como vanguardista, ele também mergulhou naquele projeto de desconstrução do antiquíssimo aparelho de representação que o Ocidente cultivava como seu sistema das artes.

Grosso modo, o que apresento em meu texto é como esta desconstrução e seu correlato projeto de criação de uma nova era estético-cultural foram interpretados e recriados pelas potentes mentes de Haroldo de Campos e de Vilém Flusser.

Esses três intelectuais foram grandes ensaístas, teóricos e praticantes da tradução e buscavam novos conceitos e imagens para descrever nossas novas paisagens anímicas e tecnológicas. Dentro deste duplo projeto que os unia, delineou-se também uma revalorização do elemento escritural da imagem e também, de modo inverso, revelou-se o lado imagético da escrita.

A “imaginação criativa”, como se sabe, foi uma das palavras de ordem das vanguardas históricas, bem como das neo-vanguardas (dos anos 1960). É esta imaginação rebelde que explode as fronteiras entre as palavras e as imagens. Para nós, que vivemos cada vez mais imersos em um mundo imagético-escritural da web, isto se torna uma banalidade.

Ao comparar Benjamin e Flusser em ensaio, você diz que a afinidade destes dois pensadores é mais “uma afinidade gestual do que de conteúdo”. Poderia explicar o que se entende por essa “afinidade gestual” entre os dois?

Justamente o gesto a que me refiro era guiado pela batuta desta imaginação que não se deixa repousar. Trata-se, antes de mais nada, do gesto de desconstrução de nossos hábitos de pensar e mesmo de sentir.

Vilém Flusser

Diante das radicais mudanças ocorridas na humanidade ao longo do século XX – século de avanços tecnológicos gigantescos, mas também de uma violência e de uma capacidade genocida nunca antes posta em prática como então –, Benjamin e Flusser procuraram “soprar”, sobre este novo homem e esta nova paisagem, palavras e imagens que deveriam nos ajudar a perceber nossos novos contornos.

Eles ajudaram – e ajudam – a realizar o design da humanidade na era da sua reprodução sintética. O “sopro” deles é como um sopro de vida (como o sopro bíblico divino) que eventualmente pode nos dar energia para fazer um design mais radical e feliz para este homem pós-histórico”.

O conceito da “memória”, também tratado no workshop, é central em suas discussões sobre Benjamin. Você escreve que a atualidade do pensamento de Benjamin está em sua teoria da história, sobretudo em sua teoria da memória. Poderia falar mais sobre como isso se insere no contexto latino-americano?

Benjamin foi autor de uma das críticas mais bem elaboradas ao historicismo, ou seja, ao modo de se pensar e escrever a história nos moldes do positivismo do século 19. Este modelo de história também era conservador do ponto de vista político, já que privilegiava os documentos criados pelo Estado.

Benjamin tanto negava a possibilidade de uma escrita da história “tal como de fato aconteceu” (o credo positivista), como também para ele a memória deveria ser revalorizada como meio de nos relacionarmos com o passado.

O registro da memória é mais aberto, voltado para os vencidos, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática) e não se apega a uma pseudo-imparcialidade. Benjamin percebeu que não existe neutralidade no conhecimento, ele sempre é embate de interesses.

Na América Latina, os discursos da memória têm ocupado um grande espaço nas sociedades pós-ditadura. Memoriais são construídos, testemunhos são publicados e toda uma política e prática jurídica se articulam em torno desta memória do mal. A obra de Benjamin – com seu teor salvacionista – tem auxiliado na construção desta cultura da memória, que é também uma luta contra o esquecimento e a perpetuação da injustiça.

É possível traçar um paralelo entre modalidades literárias acerca do Holocausto e sobre ditaduras latino-americanas – modalidades essas para as quais você se propõe no volume História, Memória, Literatura buscar um “denominador comum” – à luz das teorias de Benjamin? Estaria nesse denominador comum um ponto de convergência entre a recepção da obra do autor nos dois continentes?

Sem dúvida, na Europa e sobretudo na Alemanha, muito do que se escreveu em torno da memória e do testemunho de Auschwitz tem uma inspiração benjaminiana. Neste ponto, aliás, a obra de Benjamin e a sua biografia confluem.

Se na América Latina também se lança mão de sua obra para se construir uma memória dos vencidos e, no caso do Brasil, se articular uma política contra a amnésia oficial, é porque Benjamin deu forma a um modo de se pensar a história que corresponde a uma nova necessidade nascida no século 20.

Em um século de catástrofes com o genocídio armênio, Auschwitz, Hiroshima, os gulags de Kolima, as ditaduras sangrentas que marcaram a América Latina, o massacre dos Tutsis e tantos outros genocídios, novas modalidades de se relacionar com os mortos e com o passado precisavam ser desenvolvidas.Na Alemanha, surgiram antimonumentos, uma cultura de memoriais, além do exemplo de julgamentos dos verdugos que foram realizados após 1945.

Processos semelhantes a este também se passaram em outros lugares do mundo. A obra de Benjamin continua a servir na confecção destas novas paisagens da memória, infelizmente ainda muito tingidas de sangue. A força dessa obra, aliás, é a sua capacidade de articular este olhar crítico e redentor sobre o passado com uma enorme abertura para o futuro. Benjamin foi ao mesmo tempo melancólico e vanguardista. Esta dualidade, difícil e também salutar, é em grande parte responsável pela vitalidade de seu pensamento.

Márcio Seligmann-Silva é professor de Teoria da Literatura da Universidade de Campinas (UNICAMP), doutor pela Universidade Livre de Berlim (FU) e pós-doutor pela Universidade de Yale. É autor, entre outros, de A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno (2009) e organizador de Leituras de Walter Benjamin (1999/2007), História, Memória, Literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes (2003) e Palavra e Imagem, Memória e Escritura (2006).

Entrevista: Soraia Vilela

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